A
História
É com alguma emoção que relembro o meu primeiro contacto
com as artes marciais... Devia ter cerca de 4 ou 5 anos quando o meu pai me
perguntou se queria ir para a aula de karate... Ele já praticava no Ginásio
Clube Português, tendo na altura, se bem me lembro o cinto azul.
Embora já não me recorde de qual terá sido a minha resposta, calculo que
tenha sido afirmativa e lembro que a ideia foi por mim aceite com
excitação... Associei logo a arte com o que tinha conhecimento dos filmes e
embora não fizesse a mínima ideia do que era o karate (penso mesmo que fiz
uma pergunta do género “O que é isso?”) sei que passei o resto do dia aos
pulos, não só de contentamento, mas também de imitação do que teria visto
nos filmes.
Lembro também que antes de iniciar a prática, fiz questão de ter o kimono (a
minha primeira aula foi já ela feita de kimono).

Fig. 1 –
Prof. Rui Carreteiro com
o pai – Prof. Carlos Carreteiro
Guardo também algumas recordações do meu
primeiro dia de aulas, principalmente o meu principal receio na altura: A
aula decorria durante a aula dos adultos, numa sala ao lado, pelo que teria
de ficar sozinho. Ao que parece tive sorte, pois o meu primeiro dia
coincidiu com o dia em que as aulas dos infantis passaram a decorrer após a
aula dos adultos.
Não me lembro propriamente da primeira aula, mas recordo que foi o meu pai
que me vestiu o kimono, bem como o meu primeiro contacto com o Ginásio Clube
Português e do saquinho preto onde levei o kimono... até me recordo do
trajecto que fizemos para ir para o GCP!
Foi neste dia que conheci aquele que durante bons anos seria o meu mestre de
artes marciais – Luíz Cunha, um dos pioneiros do karate em Portugal,
personalidade que dirigia a minha aula, e responsável por aquela que durante
cerca de 15 anos seria a minha escola de karate – Escola Tradicional de
Karatedo.
Das mãos de Luiz Cunha recebi um poster com o símbolo da ETK e as atitudes
do estudante sincero. Foi-nos na altura pedido para o colorirmos e
colocarmos no nosso quarto. Assim o fiz e assim o mantive até há bem pouco
tempo.
Embora tenha sido este o dia do meu primeiro contacto físico com as artes
marciais – karatedo – o facto do meu pai já ser praticante e por vezes
participar nos estágios que se realizavam à noite, levando-me a ter de ficar
sozinho em casa com a minha mãe, desde muito cedo me levou a conhecer o
sacrifício que a sua prática obriga.
A partir deste primeiro dia, uma nova rotina entrou na minha vida: Todos os
Sábados, de manhã, era dia de aula no Ginásio Clube Português...
Embora possa não parecer significativo, na realidade, este facto fez com que
tivesse tido uma infância algo diferente da das outras crianças... De
semana, no recreio da escola, era tema de conversa o episódio dos desenhos
animados que tinham passado na televisão durante a manhã de Sábado, mas
estando no treino nunca tive hipótese de acompanhar este espaço infantil...
Lembro-me que já na escola primária, nas alturas de festa, organizava a
pedido dos meus colegas e em conjunto com eles, pequenas demonstrações de
karate para toda a turma.

Fig. 2 – Prof.
Rui Carreteiro aquando da graduação de 9º Kyu – cinto branco
Desta classe infantil pioneira da ETK,
creio que sou o único actualmente a praticar. Entre os meus colegas de
prática estavam os filhos de Luiz Cunha e de Luís Silva Carvalho – outro dos
mestres que sem dúvida marcou o meu percurso pelas artes marciais. Era no
fundo inicialmente uma classe formada por filhos de instrutores.
No ano seguinte à minha entrada para o karatedo, o meu pai abriu o seu
primeiro dojo na minha área de residência. Embora estivesse presente em
todas as aulas, a maior parte do meu tempo era aqui ocupada a brincar nos
colchões e a observar o treino dos adultos... Continuei contudo com o meu
treino regular aos Sábados no Ginásio Clube Português.
Foi com cerca de 10 anos que participei nos primeiros exames de graduação
para infantis da Escola Tradicional de Karatedo, tendo atingido directamente
a graduação de cinto laranja (fui portanto cinto amarelo apenas durante uns
escassos minutos).
Dos longos anos em que fui cinto branco, apenas posso dizer que só me
fizeram bem, pois trabalharam a humildade e o facto da côr do cinto não
mudar não signiicou que o meu aperfeiçoamento e aumento de conhecimento não
se registasse.
Seguiu-se então um período de prática regular, não só ao Sábado (no GCP –
Lisboa), mas também durante a semana, nos dojos do meu pai, entretanto
ampliados no concelho de Vila Franca de Xira.
O Contacto com Kenji Tokitsu
Foi sensivelmente por esta altura que conheci uma outra referência sem
dúvida marcante para a minha prática. A convite da direcção da ETK e de Luíz
Cunha, Kenji Tokitsu vem pela primeira vez a Portugal dirigir um estágio.
A nossa forma de praticar karate já era diferente da mais conhecida na
altura – Shotokan: Os movimentos eram mais suaves e descontraídos,
privilegiando-se a respiração. A partir deste momento adoptamos o método
deste investigador, uma arte marcial então denominada Jisei Budo, que
acompanhei entusiasticamente durante longos anos.
Com ele conheci artes como o Tai Chi Chuan, o Chi Kung (ginástica
energética), o Kenjutsu (sabre japonês), o Da Cheng Chuan e o Método de
Hida.
Mas nem tudo foram rosas, ou se o são, há que não esquecer que algumas rosas
têm espinhos. Aquando dos meus 14 anos, altura em que era cinto azul,
durante uma aula, fracturei a tíbia-tarso, quando num exercício de combate
ao recuar coloco mal pé no limite da alcatifa. Tal obrigou-me a suspender a
prática por cerca de 3 meses.
Seguiu-se então um novo período na minha prática em que fui atingido por
várias lesões. No ano seguinte (15 anos, cinto vermelho), aquando de um
exercício de combate com o meu pai, e ao efectuar uma rotação sobre o pé de
apoio, faço uma ruptura de ligamentos e deslocamento da rótula ao nível do
joelho que me forçou a uma paragem brusca e duradoura. Estávamos em Janeiro,
e só vim a poder retomar a prática, ainda com bastantes dores e limitações,
em Maio.
Foi um período conturbado, com lesões frequentes... O próprio exame para
primeiro castanho (16 anos), foi realizado com algumas dores, marca das
lesões anteriormente ocorridas...
Não mais fui o mesmo, encontrando-me num período algo desmotivante... Pensei
mesmo que não conseguiria progredir mais dadas as limitações físicas que
tinha... pensei em deixar de usar o cinto castanho e passar a usar o cinto
branco, não porque achasse que não o merecesse, mas por achar que não seria
mais capaz de progredir.
Fig. 4 –
Prof. Rui Carreteiro,
Sensei Kenji Tokitsu e Prof. Carlos Carreteiro.
Período de
Reflexão sobre a prática
Aproveitei contudo este tempo para ler e reflectir sobre a minha prática...
peguei no meu dossier, onde arquivo textos vários, afins à temática das
artes marciais e comecei a ler todos os textos de que dispunha...
Foi então nesta altura que reforcei o meu contacto com as práticas internas
– Tai Chi, Chi Kung... – e achei que poderia estar ai o meu futuro... passei
então a concentrar-me nessas práticas que não só exigiam menos esforço no
domínio físico, pelo que as minhas limitações não eram tão intensas, mas
também poderiam permitir através do seu efeito terapêutico, alguma forma de
recuperação.
Li então um texto que fazia referência ao mestre Harumitsu Hida: Também ele
teria sido uma pessoa frágil e doente, que através da prática de exercícios
específicos havia conseguido um reforço fantástico da vitalidade do seu
corpo, atingindo mesmo capacidades fora do comum...
A minha aposta nos exercícios internos, estava então delineada. E realmente,
graças a uma prática mais cuidada e equilibrada, e um reforço ao nível
principais áreas afectadas, consegui atingir um nível nunca por mim antes
alcançado que me permitiu não só a graduação de segundo castanho, mas
também, aos 20 anos, terceiro castanho.
O contacto com artigos vários, da autoria de mestres conceituados, veio
aumentar a minha bagagem teórica permitindo não só uma melhor compreensão da
arte mas também uma melhor assimilação dos exercícios, através de novos
modelos mentais.
Paralelamente a todos estes factos, que caracterizaram a minha prática
enquanto aluno, sempre estive ligado às mais diversas iniciativas, como
sejam estágios, demonstrações entre outros, não só enquanto participante,
mas também como organizador.
A este título, lembro alguns episódios engraçados, como seja uma
demonstração no Pavilhão dos Desportos (actual pavilhão Carlos Lopes)
transmitida pela RTP em que fiz toda a demonstração com uma dôr num pé; uma
demonstração em que por força das circunstâncias, tive de vestir umas calças
do kimono do meu pai, que me estiveram sempre a cair, obrigando-me a estar
constantemente a segura-las; uma demonstração em que aquando de um exercício
de combate sofro uma deslocação da rótula do joelho, tendo continuado, na
medida do possível, o esquema; mais recentemente uma demonstração em que
logo no início tenho uma cãimbra no músculo da perna e fico com dores o
resto da demonstração; ou várias outras onde ocorrem lapsos de memória que
me levam a improvisar, ou ainda uma em que o colega em vez de me projectar,
como estava previsto, fica simplesmente parado a olhar para mim...
O Aparecimento do
Instituto Tao Budo
Todos estes factos, vieram, contudo, garantir que adquirisse uma certa
experiência que permitiu que iniciasse a minha carreira como assistente,
quando ainda era cinto vermelho e finalmente, como docente aos 18 anos,
quando era segundo castanho.
Esta experiência aliada ao desejo de alargar o clube dos alunos de karatedo
que havia criado enquanto criança, destinado a todos os praticantes de artes
marciais dos nossos dojos, seus familiares e amigos, bem como a necessidade
de preencher algumas lacunas existentes, estiveram em 1999, na base da
iniciativa de criar um instituto, todo ele centrado na prática de artes
marciais e de desportos orientais.
Esta ideia não terá sido bem aceite por alguns, e se havia alguns aspectos
que não me vinham a agradar, a partir desta altura pioraram. Nunca esperei
ser admirado publicamente nem condecorado pela minha dedicação à arte. Acho
que o meu verdadeiro prémio consiste no que adquiri pela prática e que uma
medalha apenas significa que temos sorte, já que alguém se lembrou de nos a
oferecer. Mas achei que merecia maior respeito e atenção. Que devia ter uma
melhor recepção por aqueles que durante tanto tempo admirei e segui. Para
mim as artes marciais sempre estiveram mais na atitude do que nos
exercícios, que a devem reflectir e por considerar que tal não vinha a ser
devidamente cumprido encontrei neste momento uma forte desilusão.
Foi então que resolvi iniciar a minha caminhada solitária pelos terrenos da
reflexão e prática. Institui então a associação que havia criado como
organismo responsável pela prática e formação que organizava.
Não foram períodos fáceis. Apesar de todos os alunos terem estado de acordo
com esta medida, houve alguns que resolveram seguir o seu caminho de outra
forma. Alguns dos quais considero terem aprendido tudo comigo, e terem sido
sempre por mim aceites com dignidade.
Foi também um período perigoso. Quando nós somos responsáveis por nós
próprios temos que ser mais exigente e por muito cómoda que seja
sentarmo-nos a ver e a dirigir com base no que já sabemos, é importante
levantarmo-nos e continuar a nossa procura e formação.
Fig.
3 –
Prof. Rui Carreteiro
O Aparecimento da
Academia e da Federação
Foi uma altura de análise que por dissecação da arte inicial surgiram novas
artes: O Tao Do, um desporto adaptado para todas as idades centrado nas
técnicas de respiração e relaxação, a defesa pessoal, mais centrada nas
técnicas de combate a corpo-a-corpo e com amas, e o Gym Fighting, a
combinação do ritmo da dança e da música com os movimentos das artes
marciais.
Entretanto, outro problema surgiu: Havia necessidade de estarmos integrados
numa Federação, por outro lado nenhuma federação dava resposta cabal às
nossas necessidades. Em primeiro lugar porque para nós uma arte marcial é
muito diferente de desporto, começando logo pelo facto de não preconizarmos
a competição.
Entretanto terminei a minha licenciatura em Psicologia Clínica pela
Universidade de Lisboa e em 2003 fiquei mais próximo da Medicina Tradicional
Chinesa através da Associação Portuguesa de Acupunctura e Disciplinas
Associadas, dirigida por Pedro Choy.
Após este período inicial, de 1999 a 2002, em que surgiram novas artes,
entrou-se num período final de convergência que veio a definir uma nova arte
supostamente, mais integrada. Trata-se de uma arte radicada no karatedo, mas
que reúne conhecimentos de outras artes japonesas, chinesas e indianas. A
esta arte chamei Karate Budo, para que quem não domina as artes possa
perceber que existem algumas afinidades ao karate, mas que a ele não se
limita, mas o seu nome correcto seria Kyubudo.
A entidade que ensina e promove esta arte chama-se Academia Kyubudo (Kybudo Ryu). A Federação que a representa é o Instituto Nacional Tao Budo.
Não se trata de um produto final, ou se o é trata-se de um produto jamais
acabado e que tenciona cada vez aperfeiçoar mais. Costumo dizer que sou
professor, mas que não tenho alunos... tenho colegas nesta tarefa tão árdua,
morosa e apaixonante que é o auto-aperfeiçoamento e desenvolvimento global
do ser humano.
Que o equilíbrio nos dê harmonia mas também coragem para seguir em frente na
procura de uma perfeição sempre almejada mas jamais conseguida.