Ao longo dessa década a decadência física foi-se
acentuando, aumento de peso, cansaço ao mínimo esforço, dores nas
pernas, costas e articulações, problemas de circulação com inchaço
das pernas, etc.
Também a ausência de exercício e uma vida de
stress, má alimentação e excesso de trabalho me começou a afectar
mentalmente, notei-me cada vez mais instável emocionalmente, com
depressões e uma série de problemas associados, tonturas, dores de
cabeça, tiques nervosos, arritmias etc.
Resolvido a voltar a sentir-me como antigamente,
aos 37 anos recomecei a praticar natação, um dos exercícios do
passado que mais gostava, mas também pela possibilidade de controlar
completamente o esforço numa situação de ausência de peso sobre as
costas e articulações.
A minha ideia inicial era ir nadando o máximo que
pudesse durante uma hora. Nos primeiros meses apenas conseguia fazer
algumas centenas de metros, mas os progressos foram notórios e
contra as minhas expectativas ao fim pouco mais de um ano tinha
igualado o desempenho da minha juventude, hoje, 4 vezes por mês,
faço 2500 metros em 1 hora e 20 minutos e espero progredir.
A natação ao longo destes anos modificou o meu
corpo e a minha mente e fez-me acreditar que é possível recuperar,
que a idade e os anos de paragem não são uma barreira, apenas a
vontade o é.
Tendo a prática regular da natação aumentado a
minha confiança na capacidade física e particularmente na vontade de
praticar e continuar, começou a amadurecer a ideia de fazer mais
qualquer coisa, praticar outras modalidades ainda mais exigentes e
de preferência orientado por alguém.
A ideia inicialmente não era praticar Karate (ou
qualquer arte marcial), mas sim pura e simplesmente exercício
físico.
Por comodidade e simpatia verifiquei na SFRA que
modalidades haviam. Por um motivo ou por outro as fui excluindo.
Algumas por terem uma orientação praticamente destinada a um público
feminino (Dança jazz, ballet, aeróbia, etc.) outras (Hidroginástica),
por estarem demasiado próximas da natação, único exercício físico
que praticava então e por último porque simplesmente não me
interessavam (capoeira, ginástica, etc.). Ainda outras por as achar
mais ligadas ao relaxamento e bem-estar como a Yoga que já tinha
praticado na minha juventude e o Tai Chi Chuan, que conhecia de
filmes e documentários verificando que era, como a Yoga, praticado
por qualquer pessoa de qualquer idade.
A única que me pareceu convidativa, e
suficientemente uni sexo foi o (Karate, Kyubudo). Aqui surgiram as
primeiras dúvidas, tenho 42 anos, terei passado a idade de poder
praticar? Haverá lugar para mim entre tanto jovem? Conseguirei um
horário pós laboral que me permita treinar? Será demasiado violento
e em vez de melhorar o meu corpo poderei contrair lesões, ficar
magoado? E que nome é este, Kyubudo? Que karate é este? Pensava que
só havia um!
A
noção simplista que eu tinha das artes marciais, excluindo o Tai Chi
Chuan, era de que era coisa para jovens e para combates e torneios
de competição. Visão essa completamente decorrente dos filmes e da
televisão e construída dentro da minha cabeça sem que ela alguma vez
tivesse sido posta à prova.
O meu
contacto com o Kyubudo viria a modificar todos os meus receios e
preconceitos e a dar um novo entendimento ás diversas artes marciais
e como se completam. Também comecei a ganhar uma nova perspectiva da
minha mente e do meu corpo, passando a estar mais consciente de mim
próprio e dos que me rodeiam.
Vamos
então ver porque meio esta transformação se começou a operar: Entrei
para o Kyubudo em Setembro de 2003 e fui gradualmente percebendo que
aquela arte marcial não tinha nada a ver com o que eu pensava que
conhecia.
Consegui com alguma dificuldade confesso, conciliar as exigências da
vida familiar e especialmente laboral, com a prática. Comecei a
interiorizar novos conceitos e a tomar contacto com técnicas e
práticas desconhecidas mas que se revelaram verdadeiros tesouros por
explorar.
Esta
tomada de consciência foi tão forte que nem uma lesão grave e
dolorosa contraída durante um treino me fez desistir de treinar,
tinha então apenas 2 meses de prática. 20 dias após ter deslocado um
joelho e ainda com dores voltei a treinar e a recuperação penso que
têm sido mais rápida do que se tivesse ficado parado.
Hoje
passados quase 9 meses sinto-me e penso que sou diferente para
melhor do que era antes de começar. Pratico Karatedo, Gym Figting,
Kenjutsu, Tai Chi Chuan, Chi Kung e Método Hida. Espero continuar
desde que não me falte a vontade, porque a idade essa só conta para
a cronologia, não para as Artes Marciais.